30 anos de Democracia Corinthiana

Há 30 anos o Brasil sonhou com um país diferente. Invariavelmente, o futebol serviu de alavanca para as mudanças sociais que demorariam quase uma década a tornar-se eficazes. Pela mão reivindicativa de Sócrates, a Democracia Corinthiana despertou o mundo do futebol para o país real e marcou um antes e um depois na relação entre o beutiful game e a política.

Democracia futebolística

A natureza proletária do Timão, o clube com mais adeptos do Brasil, foi fundamental para o sucesso de uma iniciativa como a Democracia Corinthiana. De certa forma o povo não esperava que a ideia surgisse de clubes mais elitistas como o São Paulo ou Fluminense ou mais relacionados com minorias de imigrantes como os italianos do Palmeiras ou os portugueses do Vasco da Gama. O Corinthians era o único clube capaz de fazer de uma iniciativa individual um projeto colectivo. De certa forma, durante dois largos anos, o Brasil sentiu-se parte do Timão, uma herança que ficou para a posteridade graças ao carácter dinâmico e transgressor dos homens que transformaram uma ideia de liberdade na voz de um povo que encontrou o caminho para ser livre, depois de décadas de uma angustiante ditadura militar.

O sucesso da Democracia Corinthiana não foi imediato e as suas reais consequências só se puderam comprovar anos depois. Mas a marca ficou. A de um clube capaz de desafiar o poder estabelecido  onde antes mandava o medo, de o desafiar abertamente e não só no relvado, e um povo disposto a apoiar os seus ídolos  utilizando o futebol como bandeira.

Se o Brasil sempre foi visto aos olhos do mundo como um país de praia, samba e futebol, só o “jogo bonito” serviu um caminho para emendar os erros do passado e seguir em frente. Com o Corinthians e, por extensão, a seleção nacional de Telé Santana, os brasileiros encontraram a inspiração e a força para ser eles próprios e libertarem-se dos jugos e medos que tinham mandado na sociedade e no futebol do país na década anterior. Quando Sócrates e companhia lideraram o seu movimento o futebol brasileiro tinha-se divorciado totalmente da herança de Pelé e procurava uma assimilação aos padrões europeus que estava longe de dar o sucesso desejado. Inspirados no próprio ideário totalitário da ditadura militar, o Brasil abandonou o seu perfume individual para apostar numa organização colectiva onde os artesãos davam lugar aos obedientes operários e a qualidade de jogo ressentia-se. Foi a década mais violenta, nos terrenos de jogo, e menos bem sucedida a nível internacional, tanto de clubes como de seleções. De certa forma, com este movimento, o Brasil redescobriu-se como país e o seu futebol reencontrou a sua alegria no terreno de jogo.

O poder da auto-gestão

A metamorfose que gerou a Democracia Corinthiana surgiu depois de uma das piores épocas da história do clube. Uma mudança de presidente trouxe novos ares na figura do presidente Waldemar Pires. Homem visionário, elegeu como director de futebol um sociólogo de esquerda, Adílson Alves, que colocou os focos na relação directa e pessoal com os jogadores, abandonando a gestão hierárquica anterior.

A conexão de Adílson com os pesos fortes do vestuário foi imediata. Numa equipa onde jogavam futebolistas como Sócrates, Casagrande ou Wladimir, figuras com uma consciência social importante, a mistura tornou-se explosiva. Semanas depois de tomar posse do cargo, Adílson chegou à direção com uma proposta inédita para gerir a equipa: auto-gestão.

Tudo seria decidido com base em votações onde tomavam parte os jogadores, o staff técnico, a directiva e direção desportiva. Todos com votos iguais, todos com o objectivo comum de devolver o clube às vitórias e, ao mesmo tempo, passar uma imagem de organização política e social para o exterior provando que era possível vencer representando tudo aquilo que era oposto ao que o governo da Junta Militar defendia. Nada era feito de forma unilateral  Contratações, vendas, renegociações de contractos, conferências de imprensa, tudo era discutido de forma animada em reuniões que se prolongavam pela noite entre cerveja, charutos e música popular brasileira.

Nesta utopia socialista a publicidade, ou melhor, a auto-publicidade, teve um papel fundamental. O Corinthians tornou-se no primeiro clube a utilizar patrocínios na camisola principal e fê-lo com palavras de ordem que desafiavam o poder político de forma evidente. Washington Olivetto, que foi quem realmente esteve por trás do termo “Democracia Corinthiana” surgiu com várias frases fortes que foram rapidamente adoptadas pelo público e transformaram-se nos gritos de ordem nas manifestações que se começavam a formar espontâneamente “Directas já”, “Quero Votar para Presidente” ou “Perder ou Ganhar mas com Democracia” tornaram-se no símbolo de um movimento que forçava o poder político a convocar eleições livres para a gestão do país. No terreno de jogo o modelo de auto-gestão começava igualmente a dar os seus trunfos e o Corinthians voltava às vitórias, vencendo o Campeonato Paulista e, sobretudo, eliminando as dívidas que tinha acumulado a gestão anterior. Começava a chegar a hora da verdade para a Democracia Corinthiana.

O papel do Doutor Sócrates

Sócrates tornou-se no grande símbolo individual do movimento.

Filho de um amante de filosofia, médico formado e libertário ideológico, o “Doutor”, como era conhecido, tornou-se não só no lider espiritual do movimento como a sua representação perfeita em campo. Juntamente com Telé Santana, transladou o modelo à seleção brasileira e ao lado de Zico e Falcao, formou um meio-campo memorável que passou para a posteridade como uma das melhores seleções que não venceram um Mundial, quando em pleno auge do movimento partiram para Espanha. Sócrates queria transformar a vitória no Mundial num desafio directo ao regime mas a derrota precipitou os acontecimentos.

Ao regressar ao Brasil, o clube apostou uma vez mais na pressão popular e a frase “Dia 15 vote” passou a aparecer em todas as camisolas associadas ao Timão. Era a data das eleições municipais e federais, uma oportunidade única para desafiar o poder político dos militares. O próprio jogador ameaçou com mudar-se para o futebol europeu se as eleições resultasse numa vitória do governo da Junta. A derrota levou Sócrates a cumprir a promessa e assinar pela Fiorentina enquanto Casagrande mudou-se para o São Paulo. Um ano depois, no entanto, Sócrates voltou para lutar pelo seu movimento. Novas eleições para a presidência apresentavam Adílson Alves como o presidente do movimento contra um candidato do regime militar. A derrota de Adílson e, uns meses depois, a rejeição da Emenda Dante de Oliveira, que solicitava a convocação de presidenciais de forma directa, foi o ponto final da Democracia Corinthiana.

O movimento desfez-se, Sócrates transferiu-se para o Santos mas o regime brasileiro da Junta Militar também estava perto do fim. O movimento tinha alertado de forma definitiva a consciência popular e um golpe de estado interno, em Brasília, levou à presidência Tancredo Neves, o primeiro eleito não militar, que abriu as portas para a democratização definitiva do Brasil que aconteceu, efetivamente, em 1990 com a eleição directa de Fernando Collor de Mello. Curiosamente, esse foi o ano onde o Corinthians venceu, pela primeira vez na história, o Campeonato do Brasil.

Dois eventos tão dispares e tão unidos, unidos na memória de um movimento que despertou o futebol e a consciência moral do país, um movimento que desafiou todos os medos e poderes do Brasil e tornou-se no símbolo mais evidente de como o futebol pode influenciar profundamente a vida política de uma nação.

3.727 / Por
  • João Bakdash

    Duas notas:

    – O filho do Adilson hoje é um dos melhores (e jovens) dirigentes do Futebol Brasileiro. Visionário como o pai, será presidente do SCCP em breve.

    – Já viu a narração de Osmar Santos na chamada ”Invasão Corinthiana” em 76? Magnífico.

    Excelente trabalho.

    • Miguel Lourenço Pereira

      João,

      Obrigado pelo feedback.

      Conheço o trabalho do jovem Adilson e tenho tido informações muito interessantes sobre a sua postura, não muito distante da que teve o pai naquela época. É desse tipo de dirigentes que o futebol brasileiro necessita. Também conheço bem esse episódio histórico na vida do clube, com essa autêntica migração de “gaviões” ao Rio.

      Um abraço

  • Olá, conhecem o curta-metragem, Ser Campeão é Detalhe? O filme foi lançado em 2011 no Museu do Futebol, abertamente ao público, e disponibilizado no dia seguinte, democraticamente, na internet.

    Ganhou prêmios em festivais de cinema no Brasil, como o Cinefoot e o Recine.

    Vai o filme no link abaixo:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=X1qiazjuZUs

    Abraços!

  • Opa, este é o link do filme inteiro:

    http://www.youtube.com/watch?v=MNyRGt95cWw

    Abs