1982, o último ano dourado do Peñarol Há trinta e cinco anos o Peñarol tornou-se no último clube charrua a vencer o Triplete na mesma temporada

Depois de ter sido uma das equipas lendárias dos anos sessenta o Peñarol atravessou um pequeno deserto até que em 1982 renasceu das cinzas para lograr um feito que nenhum clube uruguaio voltou a lograr, carregar ao mesmo tempo o escudo de campeão nacional, continental e mundial ao peito. Uma lenda charrua desenhada com golos no último suspiro e remates contra a superstição.

O lendário Peñarol de Spencer

Entre 1958 e 1962 o Peñarol pôde ombrear com o próprio Real Madrid no que ao título de maior potência mundial se podia referir. O clube não só venceu cinco títulos nacionais consecutivos – o seu primeiro Pentacampeonato – como também as duas primeiras edições da Copa Libertadores e, em 1961, a Taça Intercontinental num duelo contra o Benfica de Eusébio. Os carboneros repetiram a façanha apenas cinco anos depois, voltando a celebrar título de liga, Libertadores e Intercontinental, ganha nesta ocasião ao Real Madrid, o que cimentou ainda mais a lenda dos homens de Montevideo como uma das maiores instituições do futebol mundial. Liderados pelos golos de Alberto Spencer, o mágico equatoriano que dava perfume a uma equipa de autênticos guerreiros orientada pelo mítico campeão mundial Roberto Scarone.

Com a afirmação das equipas brasileiras e argentinas na Libertadores, com o passar dos anos o conjunto uruguaio foi perdendo protagonismo no maior torneio de clubes sul-americano e apesar de ter voltado a disputar uma final – em 1971, perdida contra o Estudiantes de la Plata – o seu papel de potência via-se resumido, cada vez mais, a uma dimensão nacional onde a sua histórica rivalidade com o Nacional, a mais antiga entre dois clubes fora das ilhas Britânicas, mantinha o campeonato local em perpétua emoção ano atrás ano.

A decadência competitiva dos clubes uruguaios na Libertadores vinha acompanhada da própria falta de presença da selecção nacional na elite. De bicampeões do mundo a figuras secundárias, os uruguaios tinham mantido nos anos cinquenta e sessenta grande parte do seu prestigio mas entrada a década de setenta e ficava evidente que o jogo mais violento e físico que os caracterizava tinha pouco a ver com a sua herança histórica. Poucos por isso podiam imaginar que no virar de década o Uruguai fosse capaz de produzir um novo campeão do mundo de clubes.

O despertar da crise

Em 1981 o Peñarol arrancou debaixo de forte tensão. O terceiro lugar obtido na temporada anterior era o pior resultado da sua história nos campeonatos profissionais. Além de ver em 1976 como o Defensor Sporting quebrava uma sequência de 44 anos de títulos divididos entre Nacional e Peñarol, os aurinegros foram em 1980 superados pelo Montevideo Wanderers, o último campeão da etapa amateur, nos idos anos trinta. Era quase o reflexo de uma nação em crise. Apesar de terem ganho o Mundialito de 1980, que tinham organizado, os uruguaios viviam em suspenso uma vez que o regime militar se encontrava, por primeira vez, com resistência popular nas urnas – que votou contra a nova constituição – e os problemas económicos começavam a aflorar. O gigante de Montevideu não estava alheio a essa crise e era necessário uma rápida reacção.

Luis Cubilla, o histórico internacional, assumiu a liderança da equipa que contava com uma mistura de veteranissimos internacionais como o guarda-redes Mazurkiewicz, os centrais Hugo Fernandez e Nelson Marcanero  ou os médios Alfredo Arias, Ricardo Ortiz, e jovens promessas do futebol uruguaio como Nelson Gutierrez, Ernesto Vargas ou Alexis Noble. A grande estrela, no entanto, revelou ser Ruben Paz. O avançado foi determinante ao longo da campanha e com os seus 17 golos – incluindo no velho clássico de Montevideu – permitiu que os manyas superassem por três pontos o seu histórico rival e assim reclamar o título nacional perdido. A etapa seguinte estava clara, olhar de novo para os rivais continentais olhos nos olhos.

A equipa arrancou a Libertadores de 1982 pela porta de atrás, sem gerar grande temor nos rivais, arrancando a disputa numa liguilha de apuramento com o Defensor Sporting e os dois candidatos brasileiros, o São Paulo e o Grémio de Porto-Alegre, dois dos máximos favoritos a levantar o troféu. A realidade provou sem bem diferente. Os carboneros arrancaram o grupo com três jogos consecutivos em casa, batendo por 3-0 o Defensor, 1-0 o São Paulo e o Grémio. Com os seis pontos somados a equipa arrancou a segunda volta com um colchão importante mas sem relaxar-se, empatando com o Defensor e vencendo no Morumbi o São Paulo para selar o apuramento sem que a derrota em Porta-Alegre fosse de qualquer importância. Os sul-americanos podiam voltar a temer as camisolas listadas dos uruguaios e nem cair no grupo da morte para a segunda ronda parecia apaziguar a fome de glória do Peñarol.

A revolução Bagnulo

Medir-se contra o campeão em título, recém consagrado campeão mundial, o Flamengo de Zico, e o todo-poderoso River Plate podia ser um osso duro de roer para qualquer equipa menos para os homens de Hugo Bagnulo, o homem que tinha aceite suceder a Cubilla quando este decidiu voltar a comandar os destinos do Olímpia, o clube paraguaio que tinha levado á glória com o seu primeiro ceptro continental.

Bagnulo tinha orquestrado um 4-3-3 muito sólido, ao bom espírito da escola charrua de então, com um jogo aberto nas alas, em que Jair era o pêndulo desequilibrador. Morena e Paz – primeiro, e Silva mais tarde, fechavam o trio de ataque apoiado num meio-campo de pressão e choque, em que Morales exercia como jogador mais ofensivo e Bossio e Saraluegui trabalhavam como os pivots chave. Sem ser uma equipa rendilhada no toque o Peñarol surgia em cada jogo procurando que o esférico rondasse sempre zonas fora de perigo, com uma defesa bem preparada e que raramente concedia golos, verticalizando o esférico para as bandas onde o talento do génio brasileiro habitualmente fazia a diferença, permitindo passar de um 4-3-3 a um 4-4-2 consoante as necessidades dos encontros.

Antes de defrontar aos outros dois gigantes continentais – um grupo que incluía assim os mais importantes clubes das três grandes potências da América do Sul – o Peñarol selou o seu segundo título de campeão nacional consecutivo, voltando a superar o Nacional de Montevideo, agora por cinco pontos na tabela final, graças ao golos de Fernando Morena, o veterano goleador da década de setenta que tinha sido chamado a render Paz, entretanto vendido ao Internacional de Porto Alegre. Contra o Flamengo, no primeiro golo do triangular, a vitória por 1-0 em casa seguiu-se a histórica goleada por 2-4 no Monumental contra os “Milionarios” argentinos que, praticamente, selavam o apuramento para a grande final. Face ao triunfo duplo do Flamengo sobre os argentinos, a decisão ficava para o jogo final no Maracana entre cariocas e platenses que chegavam sabendo que um empate era suficiente.

O jogo foi tenso – com mais de 130 mil adeptos nas bancadas – e disputado e no final decidido com um golo de sabor canarinho mas com as cores uruguaias. Um disparo de falta directa de Jair, contratado nesse ano ao Internacional e um dos maiores especialistas mundiais em bola parada, foi suficiente para gelar a catedral brasileira num novo “Maracanazo” e garantir o regresso do Peñarol a uma final continental.

O golo milagroso em Santiago

Depois de medir-se contra alguns dos maiores escudos do continente a final podia parecer um anti-climax já que diante do Peñarol se encontrava o Cobreloa chileno, um clube fundado poucos anos antes na zona mineira andina e que rapidamente se tinha convertido numa das grandes potências regionais. Os chilenos podiam ter poucos anos de vida mas já acumulavam alguma experiência continental, tendo sido derrotados num terceiro jogo – precisamente em Montevideu – na final da Libertadores de 1981 contra o Flamengo. Tinham garra e sabiam competir como poucos e isso ficou evidente na tensão competitiva dos dois encontros.

A 26 de Novembro, em Montevideu, no Centenario, o jogo acabou sem golos apesar do maior domínio dos locais o que abria melhores perspectivas para os chilenos que tinham aprendido a fazer do jogo em casa uma arma decisiva na sua campanha continental. Contra si no entanto tinham a necessidade de que a final se disputasse em Santiago e não no seu estádio de Calama por questões logísticas e de dimensão. Aproveitando essa realidade, os uruguaios souberam estar á altura da exigência dos acontecimentos e aguentou a pressão do Cobreloa na primeira parte para ir equilibrando o jogo até dar, no último minuto a estocada final. Quando todos imaginavam já a necessidade de um terceiro encontro, o guarda-redes chileno Oscar Wirth pontapeou o esférico com força para o coração do campo uruguaio com o relógio a dar as últimas mas depois de um hábil roubo de Gutierrez, este fez chegar a bola aos pés de Miguel Bossio que iniciou um contra-ataque veloz pela direita com Venancio Ramos que centrou para o coração da área onde Morena controlou o esférico e desferiu um remate que entrava para a posteridade. O golo congelou Santiago e lançou milhares para as ruas de Montevideu.

O homem que tinha sido não só o melhor marcador na liga mas também da equipa na campanha da Libertadores, com sete tentos, convertia-se no mais inesperado dos heróis continentais. Uma história que ainda não tinha chegado ao fim.

Um Triplete Histórico

Se os sul-americanos se tinham encontrado com um campeão intercontinental surpreendente, o mesmo podiam dizer dos europeus. O triunfo do Aston Villa frente ao Bayern Munich tinha sido, talvez, ainda mais épico e era agora frente aos ingleses que os uruguaios iam disputar o troféu internacional de maior relevância para os sul-americanos em Tóquio. A comitiva, com o presidente Washington Cataldi à cabeça, aterrou na capital nipónica apenas dez dias depois de selar o título continental. Ainda vivendo a euforia dos festejos, os uruguaios encontravam-se contra um Villa em profunda crise – apesar da conquista do título continental no anterior mês de Maio a equipa já então tinha voltado à mediania da tabela classificativa na First Division – mas profundamente motivado e decidido a vender cara uma hipotética derrota.

Os homens de Tony Barton começaram a final mais determinados mas encontravam-se com uma hiper-motivada e organizada formação aurinegra que, pouco a pouco, foi tomando controlo do jogo. Aos 27 minutos chegou o momento decisivo da contenda. Num livre espectacular, Jair, o melhor em campo, desbloqueou o empate no marcador e colocou definitivamente o Peñarol numa situação cómoda que soube gerir como poucos durante a hora seguinte. O segundo golo, de Walkir Silva, aos 68 minutos, limitou-se a selar uma evidente vantagem sobre o terreno de jogo de uma equipa claramente superior ao conjunto britânico e que conquistava assim o seu terceiro título num mês, a última vez na sua história que venceria o ansiado “Triplete” de Liga, Libertadores e Intercontinental.

Para mais, o triunfo em Tóquio significava igualmente que o clube uruguaio era o primeiro em vencer três edições da Taça Intercontinental, feito que seria igualado – em 1990 pelo AC Milan e em 2002 pelo Real Madrid – mas nunca superado.

A decadência do futebol charrua

Depois do triunfo no Olímpico de Tóquio muitos antecipavam a aurora de uma nova era dourada mas a realidade acabou por ser bem diferente. A equipa voltou a disputar a final da Libertadores mas acabou derrotada pelo Grémio de Porto-Alegre, na desforra pela precoce eliminação no ano anterior, num jogo onde a ausência de Jair, por problemas internos depois de se ter negado a partilhar o prémio de melhor jogador na final da Intercontinental como tinham acordado todos os jogadores, revelou ser decisiva. A juntar à eliminação continental o Peñarol sofreu o seu maior desaire doméstico de sempre e terminou no quarto lugar o campeonato nacional o que levou ao despedimento de Bagnulo e à venda de vários dos seus jogadores.

A tensa situação política que antecipava já o final da Junta Militar e a crise económica que se lhe seguiu dificultou ao máximo a afirmação do projecto do Peñarol de Cataldi que, no entanto, apenas quatro anos depois, renasceu das cinzas reconquistando o título nacional, primeiro, e a Libertadores depois, frente ao America Cali. Os comandados de Oscar Tabarez, um jovem e promissor técnico, foram no entanto incapazes de repetir a proeza do “Triplete”, caindo debaixo de uma copiosa nevada em Tóquio frente ao FC Porto no jogo que marcou o ponto final histórico do Peñarol como potência mundial. Desde então, três décadas depois, o clube perdeu não só a hegemonia nacional para o Nacional – que no ano de 1988 esteve perto de emular o seu histórico rival, vencendo a Libertadores e Intercontinental apenas para perder a liga milagrosamente contra o Danubio – como apenas em 2011 voltou a disputar uma final da Libertadores, caindo derrotado contra o Santos de Neymar.

Para muitos, com o passar dos anos, a memória longínqua dos anos dourados dos homens de Bagnulo vai ganhando ainda maior tom de épica, uma recordação não só de um onze que fez história como também a saga do último clube uruguaio a lograr o triplete, feito que depois o futebol sul-americano só voltou a viver com o River Plate de 1986 e o Boca Juniores de 2000 e 2003.

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