Para agradar a gregos e troianos, o governo militar do Brasil criou o campeonato nacional mais longo e extenuante da história do futebol. Em 1979 houve 94 equipas a lutar pelo título de campeão brasileiro. Um torneio sem fim que acabou de forma histórica com o único vencedor sem derrotas até hoje.

94 equipas para agradar a todos

Nos dias de hoje é impensável imaginar um campeonato de primeira divisão com quase cem equipas. No caso brasileiro o cenário não era demasiado diferente. No entanto o país estava habituado a torneios longos, sem fim, como consequência das habituais disputas políticas que definiam o panorama desportivo do país.

Em 1959 o país abandonou definitivamente o formato exclusivo dos estaduais porque era necessário encontrar os representantes brasileiros para a recém-criada Copa dos Libertadores. Durante quase uma década foi complexa a forma de organizar um torneio num país dominado pelo binómio Rio-São Paulo com a ocasional aparição de equipas fortes do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia. Em 1971 desenhou-se definitivamente um novo formato de liga, com subidas e descidas de divisão constantes. Claro que sempre um clube influente ou o representante solitário de um estado caiam na segunda divisão encontravam-se fórmulas para reformular a prova. Para manter todos contentes.

Em 1979 a situação atingiu o seu extremo máximo. E o Brasileirão caiu no descrédito definitivo. O governo militar brasileiro não estava disposto a perder a sua influência no interior do país e permitiu à Confederação Brasileira dos Desportos organizar um torneio de proporções épicas. A confederação, em vésperas de ser substituida pela atual Confederação Brasileira de Futebol, desenhou um modelo em quatro etapas distintas eludindo o formato de liga regular. Cinquenta e oito jogos durante três meses para apurar o campeão do Brasil.

A saga do campeão invicto

A fórmula do torneio foi criada para permitir ao máximo de clubes regionais participar numa competição nacional. Os maiores clubes do Rio de Janeiro e São Paulo foram dispensados de disputar a fase inaugural mas os emblemas paulistanos reclamaram o direito de terem estatuto suficiente para entrar apenas na terceira ronda. Era a mesma onde se estreariam o campeão (Guarani) e o vice-campeão (Palmeiras) do ano anterior. A comissão organizadora recusou e assim o São Paulo, Santos, Portuguesa e Corinthians declinaram entrar na prova.

Uma decisão polemica e que abriu a prova ao favoritismo dos emblemas cariocas. Vasco da Gama e Flamengo arrancavam a competição como favoritos. Mas nenhum deles conseguiu estar à altura da imensa temporada do Internacional de Porto Alegre. Pela única vez na história do Brasileirão uma equipa venceu o torneio sem perder qualquer encontro. E essa equipa foi o “Inter”.

Os homens do Rio Grande do Sul entraram na competição na primeira ronda.

A confusão era generalizada. Existiam oito grupos de dez equipas – sem representantes do Rio e São Paulo – dos quais se qualificavam os quatro primeiros para a fase seguinte, salvo os últimos dois grupos que, por serem considerados mais fortes, permitiam o apuramento de oito das dez equipas. Uma questionável dualidade de critérios, mais políticos que desportivos, que não incomodou a campanha do Internacional que venceu um desses dois grupos de forma clara e contundente.

Na segunda fase, já com representantes paulistas e cariocas, voltaram-se a criar sete grupos, com oito equipas cada. O critério geográfico utilizado na primeira fase deixou de ser tida em consideração e os dois melhores conjuntos de um sorteio puro seguiam em frente para a fase terceira ronda, a última em formato de grupos. A eliminação de Botafogo, Grémio, Atlético de Mineiro e Fluminense reduziram o leque de favoritos. Para a terceira ronda – a decisiva luta para entrar nas meias-finais – o protagonismo parecia ser de novo das equipas paulistas. Eram cinco, por duas do Rio e Paraná. No final só o Palmeiras seguiu em frente, caindo eliminado às mãos do Internacional depois de uma derrota em casa por 2-3 a que se seguiu um empate a um em Porto Alegre.

Guará, a pior das 94 equipas

Se em 1979 o título foi para o Internacional, o terceiro nacional da sua história, o campeonato ficou para a história pelo número de participantes: 94.

Entre todos esses clubes, onde se incluíam os principais emblemas de cada um dos estados, o reverso da medalha está no modesto Guará.

O clube do Distrito Federal – onde foi construida Brasilia – acabou esse longo e imenso torneio no último lugar. A equipa 94. Em oito jogos somaram zero vitórias, empataram apenas por duas vezes e sofreram 14 golos pelos dois marcados a seu favor.

É um clube ainda hoje praticamente despojado de títulos. Só num ano louco como foi o de 1979 o Clube Regatas de Guará podia encontrar forma de disputar o título nacional sem cair previamente nas rondas de classificação dos estaduais ou das divisões inferiores. Em 1996 venceu pela primeira vez o estadual do Distrito Federal. A sua participação no campeonato nacional de 1979 (a única na sua história) deveu-se exclusivamente a ter acabado o estadual do ano anterior na terceira posição. A aventura começou e acabou nesse ano louco do futebol brasileiro!
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O primeiro jogo da final, contra o Vasco da Gama, foi disputado no Rio de Janeiro. Perante quase 60 mil adeptos no Maracaña, o Inter foi implacável e venceu com dois golos de Chico Spina, deixando a questão do título praticamente decidida. Sem estrelas, a equipa do sul do país era um colectivo fortissimo, brilhantemente orientada por Ênio de Andrade e com Falcão, Jair e Bira como principais figuras. No segundo jogo da final, a equipa da casa repetiu o triunfo contra os homens do veteraníssimo Otto Glória.

Vinte e três jogos depois, contando todos os jogos disputados por vitórias (17) e empates (seis) a equipa mais goleadora do campeonato (40 golos marcados por 13 golos sofridos) era campeã do torneio mais largo da história do Brasil.

As metamorfoses do Brasileirão

A epopeia do título conquistado pelo Internacional foi apenas um dos muitos exemplos do caos organizativo do futebol profissional no Brasil.

As constantes guerras políticas entre os clubes de São Paulo e o Rio de Janeiro, a pressão mediática dos principais emblemas dos restantes estados e o difícil equilíbrio de poder em Brasília pautavam o ritmo do jogo. Os adeptos, a lógica e até mesmo a logística eram questões menores.

A liga do Brasil continuou nas décadas seguintes a viver no caos. Ano atrás de ano o torneio mudava de formato, de número de participantes, de regras e de participantes. Da cisão da Copa da União ao torneio organizado fora do controlo da CBF em 2000 que permitiu a inesperada presença na final do modesto São Caetano, o Brasil viveu décadas de desnorte organizativo até que a competição adotou definitivamente o modelo europeu de torneio regular.

Desde então a competição reduziu consideravelmente as suas equipas na primeira divisão, de 26 às 20 actuais, ampliando em contrapartida as séries inferiores que transformam o futebol profissional do Brasil num mastodonte de 100 equipas. Para lá da Copa do Brasil e dos respectivos campeonatos estaduais que continuam a abrir as temporadas desportivas em cada Outono canarinho.

Longe vão os dias do velho refrão popular que dizia que “onde a Arena vai mal, mais um no nacional”, lembrando que a cada sinal de instabilidade política o governo da ditadura militar encontrava forma de maquilhar a situação com a sua influência nos destinos do futebol brasileiro.

3.472 / Por
  • Saulo

    Excelente texto, só com uma ressalva: Belo Horizonte é a capital de Minas Gerais. A primeira é cidade, a segunda estado.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Saulo,

      Naturalmente. Obrigado pela correcção!

      um abraço

  • pedro vasconcellos

    havia um famoso slogan nesse período que dizia: “onde o ARENA vai mal, mais um time no nacional”. ou seja, nos lugares aonde o partido político afinado com a ditadura militar (ARENA) não tinha apelo popular, o governo tratava de colocar um time daquele local no campeonato, numa tentativa de agradar à população. o campeonato de 1979 foi o auge desse inchaço com propósitos explicitamente políticos.

    abraço!

    • Miguel Lourenço Pereira

      É verdade Pedro, utilizamos esse mesmo refrão para fechar a reportagem!

      um abraço

      • pedro vasconcellos

        é verdade! tava lendo pelo celular e não vi que tinha a última parte (metamorfoses do brasileirão). achei que acabasse na final. parabéns pela matéria e grande abraço!

  • Ronaldo Pereira da Rocha

    O lema era:Onde a ARENA vai mal,mais um clube no Nacional e onde a ARENA vai bem mais um clube também.