1976, o último Scudetto do Torino Trinta anos depois da era do Gran Torino o mítico clube granate viveu uma última temporada de sucesso contra toda a expectativa

Em 1949 o desastre de Superga provocou o final trágico de uma das mais brilhantes gerações da história do futebol. O Torino conquistaria esse ano o seu quinto título consecutivo mas nos anos seguintes mergulharia em depressão e nunca mais voltaria a vencer a liga italiana até que em 1976 um sopro de nostalgia permitiu ao Toro recordar a euforia de outros tempos.

O trauma de Superga

Poucos clubes conseguiram sobreviver a uma tragédia das dimensões de Superga. O Torino não foi um deles. As feridas eram demasiado profundas, demasiado intensas para sarar completamente. Aquele que foi o clube que dominou o futebol transalpino durante os anos quarenta e que tinha, no presente e futuro, capacidade de estender a sua hegemonia uma década mais – e, quem sabe, ter antecipado a liderança emocional do Real Madrid naquele invento espantoso que foi a Taça dos Campeões Europeus – rapidamente se transformou numa sombra de si mesmo. No cume de Superga não morreram apenas jogadores míticos, técnicos de excelência e dirigentes que entendiam perfeitamente a essência do futebol da época. Morreu também uma aura e vontade de ganhar que se perdeu para sempre.

A equipa caiu quase no esquecimento e abandonou a lista dos grandes de Itália rapidamente à medida que tantos os seus vizinhos turineses, a Juventus, como os dois grandes de Milão, mas também de Roma, de Napoles, Génova e Florença ocupavam lugares mais proeminentes. Entre o título conquistado, post-mortem, em 1949 e 1964, o “Toro” viveu num Filadélfia silencioso e de luto. A equipa que tinha conquistado um recorde de cinco ligas consecutivas entre 1941 e 1949 – com um hiato, por culpa da II Guerra Mundial entre 1942 e 1944, apesar do La Spezia ter-se proclamado campeão de uma liga improvisada – nunca mais voltou sequer a lutar pelo Scudetto.

A lenda trágica de Gigi Meroni

Nesse período de quinze anos o seu melhor resultado foi um sétimo lugar, com direito inclusive a despromoção à Serie B. Em 1964 chegaram ao clube dois nomes que podiam ter mudado para sempre o destino aziago do Torino.

Nereo Rocco foi apontado como treinador – o homem por detrás da afirmação continental do AC Milan – e Giggi Meroni chegou ao clube. Enfant terrible, contestário, filho dos rebeldes anos sessenta como nenhum outro atleta italiano, Meroni personificava toda a aura de grandeza bigger tan life dos Mazzolla e companhia e com ele como patrão do ataque parecia que, uma vez mais, o Toro podia sonhar alto. Em 1964-65 a equipa terminou a campanha no terceiro lugar e alcançou as meias-finais da Taça de Itália, resultados há muito apenas vistos em sonhos audazes de alguns tiffosi fanáticos. Parecia estar criada a base para um sólido assalto ao Scudetto mas na seguinte época os desencontros entre treinador e estrela voltaram a precipitar a queda para meio da tabela e quando a temporada 1967-68 arrancou, a tragédia voltou a bater à porta.

Na noite do 15 de Outubro, depois de um jogo em casa contra a Sampdoria, Meroni, que tinha acabado expulso, decidiu escapar do ritiro imposto por Rocco para encontrar-se com o seu colega de equipa Fabrizzio Poletti e a sua companheira de então, que fazia passar por irmã para evitar a ira de Rocco. Ao atravessar a rua Re Umberto para ir ao bar de enfrente e chamar assim um taxi, o jogador foi atropelado por um jovem adolescente. Atilio Romero, ao volante de um Fiat Coupé, que cuspiu o corpo para a via oposta onde outro Lancia voltou a atropelar o corpo já moribundo. Duas horas depois confirmava-se o óbito que marcaria para sempre Romero. Meroni era o seu ídolo e saber que tinha sido o causante da sua morte levou-o a uma profunda depressão. Apresentou-se pessoalmente na esquadra de policia para relatar o sucedido e acabou por ser ilibado uma vez que fora Meroni quem tinha cruzado a estrada numa zona proibida de forma perigosa. Trinta e cinco anos depois Atilio Romero acabaria por converter-se no presidente do Torino. Uma semana depois o Torino goleou a Juventus no Derby de la Molle mas foi o último suspiro de glória do projecto à volta do jovem astro.

O sonho proibido do último Scudetto

A morte de Meroni voltou a submergir o clube na depressão dos anos anteriores à sua chegada mas o trabalho de base de Rocco também foi dando, progressivamente os seus frutos. O clube venceu duas Taças de Itália e em 1972 chegou a acabar o torneio no segundo lugar – o seu melhor resultado desde o último título – numa disputa a três com Milan e Juventus. A chegada em 1975 de Luigi Radice ao comando da equipa elevou as aspirações dos Granatte a outro patamar. Antigo jogador de Rocco no AC Milan dos anos cinquenta, Radice aplicou no Torino a mesma mentalidade e filosofia do seu mentor, um estilo de giocco a la italiana directamente herdeiro da tradição do catenaccio e muito distante da memoria ofensiva do Gran Torino dos anos quarenta.

Numa equipa que contava já com futebolistas de nível como o avançado Pulicci, Grazianni e Claudio Sala, acrescentava-se agora a presença de Bacchin, Caporale, Pecci, Patrizio Sala e Garritano, que encaixavam na ideia do 3-4-2-1 praticado pelo técnico principal com Pulicci como figura central de ataque. O avançado, que já tinha sido Capocanonieri em 1973 e 1975, era um dos grandes goleadores da sua geração e muito dependía a equipa dele para desbloquear as rochosas defesas italianas de cinco homens, tão habituais naqueles duros anos setenta, os da ressaca do catenaccio mais extremo.

O Torino começou mal o ano e rapidamente pareceu dar a sensação de que o máximo que podía almejar era, de novo, tentar alcançar o pódio. Derrotado pelo Bolonia na primeira jornada, concedendo empates a Ascoli e Sampdoria, nas seguintes, à setima jornada a equipa tinha nove pontos. O encontro seguinte, no Comunale, media o conjunto granate com os seus vizinhos, a Juventus, lideres isolados do campeonato e campeões em título. Num jogo duro e intenso os locais venceram por 2-0, com golos de Grazianni e Pulici e de repente os adeptos começaram a acreditar que algo distinto podia estar a fraguar-se. A equipa entrou numa espiral ganhadora e nas jornadas seguintes bateu o Milan em San Siro, o Como e a Lazio em casa e a Fiorentina fora, antes de empatar em Cagliari. Sem perder desde a primeira jornada, o Toro fechou a primeira volta na liderança, depois de golear o Verona mas uma derrota em Perugia voltou a colocar a Juventus nos calcanhares dos Granate, situação mais evidente depois da derrota contra o Inter, em San Siro, quinze dias depois ao tempo que a Juventus vencia na Sardenha. Com os dois grandes de Milão a uma distancia pontual importante parecia que o título ia ser um Derby de la Mole em formato de maratona nas restantes onze jornadas e assim foi.

Depois de um duplo triunfo, o empate da Juventus com o Milan permitiu ao Torino manter a liderança apesar de não superar igualmente a Lazio e, na seguinte jornada, com a vitória da Roma frente à Vechia Signora, ganhar ainda mais oxigénio. O jogo entre Torino e Juventus era o que se seguía e com mais de 66 mil pessoas a lotar o Comunale, uma vez mais o Toro voltou a mostrar a sua versão mais implacável batendo o histórico rival por 0-2 e ampliando assim a três pontos a sua vantagem na tabela classificativa. Faltavam sete jornadas e a Juventus precisava de duas derrotas do seu vizinho, como mínimo para apertar as contas do título mas os homens de Radice não perderam um só encontro até ao final do torneio, cedendo apenas dois empates, em Roma contra a Lazio e em Verona, antes da última jornada onde todos seguravam a respiração. O brilhante sprint final da Juventus colocava ambas as equipas a dois pontos de diferença. Em caso de empate, na classificação, disputar-se-ia um playoff tal como em 1965. No final não foi sequer preciso olhar para o desempate. A Juventus caiu com o Perugia e o empate a um golo frente ao Cesena foi mais do que suficiente para celebrar o título com mais três pontos do que o seu directo perseguidor. A euforia granate invadiu as ruas de Turim e apesar do estilo pouco atractivo e da ausência de estrelas, o triunfo foi celebrado com a mesma alegria do que aqueles conquistados mais de duas décadas e meia antes.

Uma breve idade de ouro antes do caos

A vitória no Scudetto de 1976 foi o parêntesis mágico na dramática e triste história do Torino.

Ao contrario do Pentacampeonato conquistado nos anos quarenta, o fantástico trabalho de Radice tinha encontrado eco numa Serie A em claro declive, onde a proibição de contratar estrangeiros e os problemas tácticos inerentes ao giocco a la italiana tinham transformado as equipas transalpinas em figuras secundárias do futebol europeu. Não havia nada do glamour e heroicidade de outros tempos e, sobretudo, não havia material humano talentoso o suficiente para repetir a gesta. Ainda assim, contra todo o prognóstico, o duelo entre turineses voltou a repetir-se na época seguinte desta feita com a vitória a sorrir à Juventus, na última jornada. Foi um pulso tremendo que acabou com 51 pontos para a Vechia Signora e 50 para o Toro, pontuação suficiente, em dezasseis edições anteriores, para garantir o Scudetto.

O Torino não perdeu qualquer jogo em todo o ano mas, ironia das ironias, um empate contra o Perugia, o aliado do ano anterior, foi suficiente para dar vantagem aos vizinhos e rivais. Em 1977/78 a equipa caiu ao terceiro posto e começou assim uma lenta decadência que encontrou apenas resistência entre 1982-84, quando as consequências do Calciopoli ajudaram a limpar um pouco o ar do profundamente viciado campeonato italiano e permitiram ao Torino voltar a lutar de igual para igual com vários rivais. Foi sol de pouca dura. Despromovido em 1989, a equipa regressou e ainda disputou, em 1992 a final da Taça UEFA – a sua única final europeia – para depois transformar-se num dos habituais clubes elevadores com passagens breves pela Serie B e prestações cinzentas na Serie A ano sim, ano não.

Nunca mais a equipa esteve genuinamente perto de vencer o Scudetto como com a geração de 1976 e nunca mais contaram com um futebolista tão mítico como Meroni, o profeta maldito do renascimento dos anos sessenta. No final de contas, apesar de tudo, o Torino nunca conseguiu deixar de ser o clube maldito marcado por Superga e pelo drama da perda de uma das melhores gerações da história do futebol mundial. O destino tinha-lhes reservado um lugar na eternidade e contra a lenda o clube nunca conseguiu verdadeiramente lutar mesmo quando naqueles dois anos mágicos os homens de Luigi Radice e os fanáticos adeptos do Nuovo Comunale tivessem de novo ouvido ao longe soar o trompete do Filadelfia e dos seus anos de glória.

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