Na história do futebol português o historial dos “Três Grandes” define-se pelos títulos conquistados e também pelo facto de serem os únicos totalistas da história dos campeonatos da 1º Divisão. No entanto, em 1939/40, o FC Porto esteve a ponto de sair desse grupo de elite mas foram salvos in extremis por uma hábil manobra administrativa. Os azuis e brancos acabaram por ganhar uma liga que nunca deveriam ter disputado.

A época dourada dos campeonatos distritais

Até meados dos anos 40 o futebol português não conhecia ainda o carrossel entre divisões. O Campeonato Nacional não era disputado por um número fixo de equipas, com promoção e despromoção ao segundo escalão, que já existia e era composto pelos melhores classificados dos torneios distritais que não conseguissem a vaga para a liga nacional. Eram os dias de ouro dos campeonatos distritais e era de aí de onde saiam os finalistas da liga regular que coroava o campeão. Nem o vencedor do ano transacto escapava a essa primeira ronda regional pelo que, em teoria, nada garantia que fosse capaz de poder defender o seu título. Esse cenário nunca sucedeu mas em 1939 esteve bem perto de ter lugar.

A distribuição das oito vagas da liga fazia-se consoante a relevância das associações distritais. Lisboa dispunha de quatro vagas – quase sempre ocupadas pelo trio Benfica, Sporting, Belenenses e um quarto clube rotativo – o Porto duas e Coimbra e Setúbal uma cada. O resto do país ficava excluído e via a sua participação nacional reduzida à Taça de Portugal, antigo Campeonato de Portugal. No Outono disputavam-se os campeonatos distritais – que tinham a sua própria organização em forma de liga – e no inicio do novo ano arrancava-se a disputa da liga nacional entre os finalistas. Em 1939 o campeão nacional em título era igualmente o detentor do título distrital do Porto e ninguém colocava um cenário em que os azuis e brancos fossem incapaz de defender o seu título contra os rivais da capital. Mas o inesperado sucedeu e o FC Porto ficou fora do grupo de apuramento direto.

O duelo contra o Académico

Tudo sucedeu como consequência do jogo entre o Académico e o FC Porto para o Campeonato Distrital. Aos vinte minutos já o árbitro do encontro, Vale Ramos, tinha expulsado três jogadores – dois do FC Porto, Guilhar e Pinga, por agressão ao árbitro, e Raúl do Académico. Um terceiro jogador azul e branco, Pocas, foi igualmente expulsado depois de provocar a lesão de Marques que não pôde ser substituído por não ser permitido à época render jogadores lesionados. Antes do intervalo estalou a revolta na bancada e o árbitro, primeiro, e o fiscal-de-linha, depois foram selvaticamente agredidos. O Porto apenas tinha cinco jogadores de campo, entre as expulsões, e o Académico nove.

O jogo foi suspenso e a vitória atribuída de imediato ao Académico por falta de jogadores suficientes do rival. No fundo era apenas uma forma rápida de por ponto e final a um partido de elevada tensão e que estava destinado a acabar numa batalha campal se tivesse existido segunda parte. Houve violência entre os adeptos de ambos clubes e tanto os jogadores como os árbitros tiveram de abandonar as instalações do estádio baixo escolta policial.
A polemica decisão do árbitro – a suspensão do encontro e a atribuição de vitória automática ao Académica carecia da definitiva aprovação da Associação de Futebol do Porto e os dragões reclamaram de imediato fazendo valer a sua influencia nos corredores do poder. A decisão salomónica da AFP foi a de ordenar repetir um jogo que o FC Porto ganhou por um a zero, recuperando a liderança na tabela classificativa mas sem a derrota com o Leixões, semanas depois, colocou em cheque a sua classificação automática, pendente de uma decisão administrativa. Isto porque o Académico continuava a reclamar da decisão de repetir o jogo, agora na Federação, e se lhe fosse dada razão, ultrapassaria os azuis e brancos na tabela. Assim foi. A decisão de repetir o jogo foi revogada, os dois pontos retirados e o FC Porto despromovido para o terceiro lugar. Leixões e Académico teriam de defender as cores da cidade na liga nacional.

A renuncia do leixões

A decisão de excluir o campeão nacional criou um estado de profunda revolta na cidade do Porto. Organizaram-se manifestações e as duras criticas dos jornais esbarraram contra a ainda poderosa censura política, denunciando-se manobras centralistas. Aos adeptos azuis e brancos não lhes convencia uma decisão tomada, isso sim, como consequência de um jogo onde a equipa tinha efetivamente ficado reduzida a cinco jogadores pelas sucessivas expulsões dos seus futebolistas. Os protestos foram tais que houve quem chegasse a ponderar o boicote generalizado à competição nacional. Nos corredores da Associação portuense o clube azul e branco tentava por todos os meios reverter a situação.

Logrou-o graças à inesperada ajuda do novo campeão distrital, o Leixões. A equipa de Matosinhos, presidida por Edmundo Ferreira, renunciou publicamente ao título, reclamando de não necessitar de nenhuma “benesse” para disputar o Campeonato Nacional. Foi uma decisão de máximo desportivismo mas que representava menos o sentir do clube – que tinha conquistado desportivamente a vaga – e mais a resposta à ausência de alternativas para que o FC Porto disputasse o torneio face à posição irredutível do Académico em não abdicar da sua vaga. O gesto do Leixões deixou em cheque a Federação que acabou por voltar atrás na sua decisão, tomando a decisão de abrir, excepcionalmente, duas vagas extras para a edição de esse ano, ampliada a dez equipas, uma distribuir pelo terceiro do Porto e outra pelo segundo de Setúbal. A sua motivação era tanto económica – as receitas dos jogos do Porto não tinham rival – como política, uma vez que degladiar-se com uma das mais poderosas associações do país – que tinha apoiado desde o principio a pretensão do FC Porto – não era vista com bons olhos pelo regime.

De excluído a campeão indiscutido

Nesse cenário o FC Porto partiu para a revalidação do título nacional, demonstrando em campo ser a mais forte formação da época do futebol português, sobretudo graças ao génio goleador de Artur de Sousa “Pinga”. Os dragões foram muito superiores aos rivais e o madeirense disputou a competição depois de inicialmente ter sido irradiado pela agressão ao árbitro do polémico jogo contra o Académico. As tensas relações entre a FPF e o presidente azul e branco, Ângelo César Machado, continuaram a fazer-se sentir.

O dirigente portuense estava baixo uma petição de irradiação pela sua postura de oposição pública ás decisões da FPF – seria confirmada um ano mais tarde – e, em retaliação, esta continuava a negar-se a entregar as faixas e título de campeão da temporada anterior. A esse cenário de conflito os homens de Miguel Siska, pareciam alheados. Goleado o Setúbal por um claro 11-0 na primeira jornada, a equipa assumiu a liderança para não a perder. Fechou a primeira volta com pleno de vitórias e Kordnya e Andrasik revelaram-se reforços fundamentais. O bicampeonato ficou selado com um record de treze triunfos consecutivos, travado por uma derrota contra o Sporting que foi insuficiente para impedir o título. Um título meritoriamente conquistado em campo, contra o Benfica, com uma exibição de autoridade sem ímpar, mas que arrancou num dos episódios mais polémicos da história do futebol português, um episódio em que as manobras de bastidores permitiram ao campeão nacional triunfar numa competição onde nunca devia ter participado.

2.115 / Por
  • Marco

    É uma história interessante que já ouvi contada desta forma, mas também já me contaram de forma diferente!
    Existe muita gente que defende que o FCPorto foi propositadamente prejudicado no jogo contra o Académico para que esse jogo impedisse o clube de se qualificar…o escândalo foi tão grande que mesmo em Lisboa houve gente que estava do lado do FCPorto!

    Mas pronto, são Estórias!! Cada um conta a sua versão! 😉

  • Daniel Goncalves

    Texto desonesto e que mente relativamente a aspectos fundamentais e omite outros importantes para chegar à conclusão enviesada que o Porto não devia ter participado no cameponato de 40. 1° O Porto realmente contestou a decisão do árbitro interromper o jogo e apelou para que o jogo fosse repetido mas por uma razao muito simples: a decisão carecia de suporte regulamentar. Ou seja, não havia no regulamente que atribuisse ao arbitro a faculdade de interromper o jogo e decidir o vencedor naqueles moldes. (O resultado do jogo era 0-0 e não havia regras relativamente ao minimo de jogadores em campo) 2° O Leixões não recusou a benesse de participar no campeonato porque a sua participação nunca esteve em causa, uma vez que com a vitória do Porto na repetição do jogo eles passaram para segundo lugar, que também dava acesso ao campeonato nacional. O que o presidente do Leixões recusou foi o título regional, atribuido pelo facto da FPF ter anulado a repetição do jogo entre Porto 3° O Porto votou CONTRA o alargamento porque porque a razão estava do seu lado. A decisão do arbitro de dar por vencedor o Academico foi arbitraria e o Porto venceu o campeonato justamente em campo.