1891, o ano do primeiro penalty

Hoje é impossível pensar num jogo de futebol sem equacionar a possibilidade de, em algum momento, um penalty poder decidir o encontro. Mas o aparecimento da grande penalidade foi quase fortuito, fruto de um protesto que marcou um antes e um depois na história do jogo.

O dia em que nasceu o penalty

14 de Fevereiro. 1891.

Quartos-de-Final da FA Cup. Em Nottingham, as emoções estão ao rubro. O Notts County vence o jogo por um a zero a quatro minutos do fim. Um lançamento longo para as costas da defesa permite ao Stoke sonhar com o tento do empate. Um disparo do avançado do Stoke encontra a voluntária mão de Hendry, um dos poucos jogadores da equipa da casa que tinham ficado atrás. Mas o central estava dentro da grande área. Entre protestos o árbitro do jogo apontou para o chão. Livre directo dentro da grande área.

O Stoke protesta mas é em vão. Os onze jogadores do Notts formam uma barreira intransponível à frente da baliza. O disparo vai forte mas contra o corpo dos jogadores rivais que aliviam a bola. Pouco depois, o apito final. O Notts está na seguinte ronda. O Stoke a caminho dos escritórios da Football Association. Os seus protestos seriam a origem do que hoje conhecemos como penalty.

Os casos precedentes

Não foi a primeira vez na história do futebol que se levantou a debate a marcação de uma grande penalidade sobre faltas cometidas dentro da grande área. A tradição do rugby já dava conta dessa preocupação e como muitos dos jogadores de então compaginavam os dias nos campos de futebol com algumas horas passadas a jogar rugby, eram conhecedores dessa penalização mais dura e quase sempre favorável ao marcador. Afinal, até aos 1880s ainda se disputavam muitos jogos com regras mixtas, de futebol e rugby em cada parte.

Também graças à herança do futebol gaélico, os irlandeses defendiam a criação de uma falta suplementar para penalizações dentro da área do guarda-redes. William McCrum, empresário e futebolista amador, está reconhecido como o primeiro a apontar um golo de grande penalidade num encontro amigável num dos condados a norte da Irlanda, então ainda parte do Reino Unido no seu todo. Mas foram os protestos formais dos dirigentes do Stoke num cenário tão importante como uns quartos-de-final da FA Cup que abriram definitivamente a porta à criação da grande penalidade.

A FA levou a votação em Junho desse ano à mesa do International Board – o organismo responsável por gerir as leis do jogo – a possibilidade de criar um livre directo dentro da área para cada falta cometida dentro do rectângulo. A lei foi aprovada, um ponto concreto foi colocado a sete metros da linha de golo e a partir de 1891-92 os campeonatos e jogos oficiais em todo o Reino Unido passaram a incluir esta nova modalidade de castigo.

O primeiro penalty oficial foi marcado na Escócia, a favor dos Airdrioniains num jogo contra o Hearts no mês de Agosto. Semanas depois, a 14 de Setembro, em Inglaterra, o Wolverampton Wanderers tornou-se no primeiro clube da Football League a beneficiar da marcação de uma grande penalidade, habilmente convertida por Billy Heath.

Nos anos seguintes a lei da grande penalidade foi redefinida. O guarda-redes passou a poder mover-se na linha de golo e os jogadores de ambas as equipas foram proibidos de entrar no rectângulo da grande área antes da bola ter sido efetivamente disparada. Com os anos a invenção de modelos como a “paradinha” levaram o International Board a precisar novas alterações, que ainda hoje estão vigentes, como a impossibilidade de interromper e retomar a corrida de forma propositada na marcação de uma grande penalidade.

A evolução da decisão por penaltys

No início do século XX o penalty já era, como o livre directo e indirecto, parte fundamental do vocabulário futebolístico. Mesmo assim, para os mais românticos, era uma forma de decisão considerada como pouco honrosa. Muitos dos grandes avançados evitavam assinalar golos históricos da sua carreira com penaltis por considerarem que não era a melhor forma de celebrar. Até aos anos setenta a decisão por grandes penalidades, em caso de empate em jogos a eliminar esteve banida, sendo substituída por jogos de repetição e até moedas ao ar, tal como sucedeu com a meia-final do Euro 68 entre Itália e União Soviética ou o duelo europeu que opôs o Celtic de Glasgow ao SL Benfica em 1970.

Algumas ligas europeias e torneios de pré-temporada tinham começado a utilizar a série de marcação por penaltys nos anos sessenta, tal como a Copa de Itália e a Taça da Jugoslávia. Foi Israel que pressionou a FIFA para adoptar a decisão por grandes penalidades de forma definitiva após uma eliminação por moeda ao ar nas Olimpiadas de 68. O tema esteve em debate durante dois anos até que acabou aprovado pelo International Board em 1970 de forma definitiva .

Desde então tornou-se parte fundamental do jogo. A Taça dos Campeões Europeus estreou o modelo nessa mesma temporada, com uma decisão entre o Everton e o Borussia Monchengladbach que os ingleses venceram. Mesmo assim, quando Atlético de Madrid e Bayern Munchen empataram no prolongamento da final da competição em 1974 decidiu-se a realização de um play-off. A primeira final europeia decidida por penalties aconteceria só em 1980, na Taça das Taças, num duelo entre Arsenal e Valência. Quatro anos depois estreava-se na Taça dos Campeões Europeus. Desde então o campeão europeu foi decidido por esse modelo outras sete vezes. A primeira final de um Mundial decidida por penaltys ocorreu em 1994 enquanto que logo em 1976 a Europa viu Panenka converter um penalty histórico para proclamar a Checoslováquia como campeã continental.

Uma nova era iniciada numa tarde de futebol semi-profissional em Nottingham que mudou para sempre o rosto do beautiful game!

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