Durante anos foram popularizados os chamados “15 minutos à Benfica”, um quarto de hora de vendaval ofensivo que permitia aos encarnados recuperar de marcadores adversos. No entanto o termo não original. A sua origem encontra-se nas margens do Tejo, quando o Belenenses reinava como uma das grandes potencias nacionais e os “15 minutos à Belém” eram noticia nos jornais.

O folclore dos “15 minutos á Benfica”

Os anos sessenta foram os da afirmação nacional e internacional do Sport Lisboa e Benfica.

O clube encarnado, referencia nacional indiscutida, deu nessa década o salto que lhe permitiu destacar-se sobre os seus rivais domésticos ao mesmo tempo que esculpia a letras de ouro o seu nome na Europa. Até à chegada de Bella Guttman era difícil separar em títulos e protagonismo o Benfica dos seus vizinhos de Alvalade. O próprio FC Porto, a pesar de ter experimentado a sua primeira travessia no deserto, tinha sido uma força dominante nos anos vinte e trinta e parecia estar a recuperar a sua preponderância até ao momento em que Guttman trocou a chuvosa Invicta pela solarenga Lisboa. Com o treinador húngaro tudo mudou. O Benfica transformou-se num clube altamente profissionalizado, com uma formação muito bem trabalhado e umas condições de treino que potenciaram uma formação lendária. Guttman deu inicio á revolução e assentou as bases mas nos vinte anos seguintes o volume de títulos – nacionais e europeus – fizeram o resto. O Benfica transformou-se no clube português por excelência.

Foi nesse período que a imprensa começou a popularizar vários mitos ligados ao clube da águia, do inferno da Luz nas noites europeias – de onde muitos grandes clubes continentais saíram escaldados – até à capacidade quase crónica de recuperar de um resultado adverso graças á garra e talento dos seus jogadores. Essa foi a base da lenda dos “15 minutos à Benfica”. Em momentos de aperto, com o resultado em contra, algum golpe de génio individual – e foram muitos, nesses anos, os génios a vestir a camisola encarnada – ou um vendaval colectivo de ataque permitiam ao Benfica terminar por triunfar sobre qualquer rival. Os adeptos entronizaram esses momentos no seu ADN e a partir de então os tais “15 minutos à Benfica” passaram a ser quase exclusividade do clube, o único a que concediam a capacidade de se exibir ao mais alto nível nos piores momentos em quartos de hora infernais. A verdade é outra. O quarto de hora à Benfica é naturalmente inquestionável e há dezenas de jogos que o comprovam. Mas a sua lenda esqueceu as genuínas origens do termo que dista muito de ser um exclusivo encarnado. Antes dos “15 minutos à Benfica” já o futebol europeu e português tinha baptizado duas equipas históricas da mesma forma e com bons motivos e foi a essas fontes que a lenda encarnada foi mais tarde buscar a inspiração. Afinal a conexão desse triângulo era evidente.

A saga de Pepe e o “Quarto de hora de Belém”

Tudo começou em Lisboa, sim, mas nas margens do rio Tejo.

A 28 de Fevereiro de 1926, para ser mais concretos. O Belenenses visitava o Benfica no campo das Amoreiras e apresentava uma novidade no onze, o extremo Pepe, com apenas 18 anos e uma aposta pessoal de Augusto Silva, figura chave na história do clube. Era um duelo para o Campeonato de Lisboa entre dois dos grandes candidatos ao titulo. O encontro foi de feição ao Benfica que chegou comodamente ao 4-1, resultado que se manteve até quinze minutos do fim. Ao mesmo tempo que os encarnados pareciam relaxar-se com o confortável marcador, os jogadores da Cruz de Cristo, num arraigo de orgulho, decidiram lançar-se desesperadamente em busca de um resultado positivo. Em treze minutos os azuis anotaram três golos e empataram a contenda. No último minuto foi assinalado um penalti na área do Benfica. Ninguém queria assumir a responsabilidade até que Pepe, o estreante, foi chamado a marcar pelo seu capitão. Não falhou. Tinham nascido na memoria colectiva os “15 minutos à Belém”.

O espírito de garra e luta da equipa do Restelo entrou rapidamente na memoria dos adeptos e nos anos seguintes estes foram hábeis em recuperar essa memoria para motivar os seus sempre que o marcador chegava ao fim do jogo com resultados negativos com o uso de cornetas ou gritos de apoio. O próprio plantel foi assumindo essa responsabilidade emocional. No ano da conquista do único título de campeão nacional, em 1945/46, foram vários os encontros decididos nas Salésias, campo do clube de Belém, e em algumas deslocações fora, com quinze minutos infernais no final de cada parte que colocavam ponto e final nas aspirações dos rivais. Nenhum desses jogos representou melhor essa aura de crença que o duelo em Elvas na última jornada do campeonato. Os alentejanos adiantaram-se no marcador aguentando o resultado até ao descanso para desanimo dos adeptos que viam escapar o título para o rival Benfica. Quaresma empatou com quinze minutos para o final e o ruído ensurdecedor das Salésias fez o resto. A equipa cercou literalmente o Elvas na sua área e o golo da vitória chegou dos pés de Rafael cinco minutos depois. O Belenenses era, pela única vez na sua história, campeão e devia o titulo ao seu espírito de luta, aos seus “15 minutos à Belenenses”!

Essa é a origem mais prosaica e lógica para que a imprensa portuguesa mais tarde utilizasse a mesma expressão para catalogar os feitos do Benfica mas dentro do balneário encarnado havia outra fonte de inspiração histórica que convém não esquecer.

O trompetista do Filadélfia do amigo de Guttman

Guttman foi um dos primeiros treinadores a inculcar nos jogadores essa capacidade de luta até ao fim com jogos psicológicos que alimentava nos treinos e concentrações. Era um treinador que dialogava constantemente com os jogadores, procurando motivá-los mesmos nos momentos de maior adversidade. Era também um profundo conhecedor do futebol europeu e sabia que aquilo que ele pedia não era nada de novo. Guttman podia desconhecer por completo a lenda dos Belenenses mas conhecia profundamente o futebol italiano.

Tinha sido espectador nos seus dias de treinador na Áustria e Hungria e foi mais tarde protagonista quando passou pelo pais transalpino para treinar primeiro o Padova e o Triestina e logo o AC Milan. Na sua primeira etapa, a final dos anos quarenta, coincidiu com um velho amigo pessoal dos seus dias de jogador nos Estados Unidos, o treinador húngaro Ernest Erbstein. Tinham uma excelente relação pessoal e Guttman era um profundo admirador do trabalho de Erbstein ao leme de uma das equipas mais emblemáticas da história, o “Gran Torino”, que dominou o futebol italiano nos anos quarenta. Uma das matrizes dessa equipa era a capacidade de aplicar um jogo de máxima pressão ofensiva nos últimos quinze minutos de cada parte.

Os Granate, liderados por Valentino Mazzola, entravam no jogo com um futebol tranquilo e rendilhado mas depois apertavam o acelerador e atacavam incessantemente no final de cada parte, gastando cada gota de energia que sobrava. O ataque era conduzido de forma simbólica no velho estádio Filadélfia quando Mazzola dava o sinal, arregaçando as mangas da camisola ao mesmo tempo que um trompetista, Oreste Bolmida, entoava na bancada o sinal de ataque com o seu instrumento. Esses “15 minuti Granate” foram emblemáticos nesses dias e faziam parte do ADN dos turineses. Foi uma ideia que Guttman nunca esqueceu e aplicou à sua chegada à Luz com insistência, a capacidade dos seus jogadores geriram os seus esforços, com cabeça, para estarem preparados para superar um rival desgastado no final de cada parte. A ideia de Guttman triunfou dentro do clube e mesmo depois da sua saída os “15 minutos à Benfica” permanecerem bem vivos no balneário e entre os adeptos. Fernando Riera, o seu imediato sucessor, entronizou ainda mais essa ideia, reforçando a importância de um grande arranque e final de partido, controlando o esforço nos quinze minutos intermédios entre as duas partes de máximo ataque. A história tratou do resto e durante os anos seguintes muitos dos rivais encarnados, sobretudo no estádio da Luz, sofriam com esses vendavais de ataque sem piedade com o público entregado por completo à equipa.

O triângulo da intensidade

Hoje já quase ninguém recorda a origem do termo nos momentos áureos da história do Belenenses, nessa altura uma genuína potencia futebolística, e nem sequer o mítico Torino que pereceu, precisamente, depois de um voo que partiu de Lisboa onde a equipa se deslocara a jogar contra o Benfica um amigável a celebrar a retirada do seu mítico capitão Francisco Ferreira. Um triângulo entre Belém, a Luz e Turim debaixo de uma mesma premissa. Um ciclo que se encerra em quinze minutos onde a bola ganha vontade própria, as bancadas se transformam em jogadores e as equipas acreditam que tudo é possível.

2.482 / Por
  • VictorJ

    “Os 15 minutos à x” são mais antigos. A sua génese tem um nome: Manuel Gourlade. Tem um local: terras do Desembargadro às Salésias. Belém sim senhor mas Belém de 1904-1908. Tudo o resto foi a reinvenção do que já tinha acontecido.
    Saudações desportivas.